segunda-feira, 21 de março de 2016

ALUMÍNIO: A VIDA DA POPULAÇÁO NAS ÚLTIMAS DÉCADAS DO SÉCULO PASSADO

APRESENTAÇÃO

         Tenho escrito sobre aspectos históricos da cidade de Alumínio, que era um bairro do município de São Roque quando cheguei nessas paragens com minha família, ou seja, no final do ano de 1958, oriundos de Ipaussu, SP.
         Eu era alguém no final da adolescência e trabalhava em conjunto com meus pais e um de meus irmãos (Nilson). Assim, fizemos tijolos para o Sr. Paulo Dias, então Chefe do Escritório da CBA. Com esses tijolos ele construiu o restante das casas que desejava na vila que era dele e leva seu próprio nome.
         Admitido na CBA como Ajudante em 1960, me aposentei em 1991 como Assistente Administrativo. Estudei, me tornei pedagogo e atuei paralelamente na Educação por 15 anos. Procurei participar da vida político-administrativa da localidade e atuei também no segmento religioso como presbiteriano que sou. Em novembro de 2014 fui agraciado com o título de Cidadão Aluminense, o que muito me honrou.
         A partir de 2010 passei a divulgar no Blog do Ribeiro algumas coisas que já havia escrito sobre a localidade de Alumínio e auto-intitulei-me Historiador diletante, que significa historiador amador (para ser historiador oficialmente precisaria ter licenciatura em História e mestrado).
         Neste trabalho, desmembro um dos aspectos daquele que considero o mais completo que fiz sobre Alumínio, cujo nome é Alumínio – História Ilustrada do Município. (http://wilson-ribeiro.blogspot.com.br/2012/12/aluminio-historia-ilustrada-do-municipio.html
            Vamos então ao que nos interessa nesta postagem, qual seja, os aspectos sociológicos da vida em Alumínio em tempos passados.


ALUMÍNIO EM FINS DOS ANOS CINQUENTA

No final da década de cinqüenta o então Bairro de Alumínio contava apenas com a Vila Industrial, bem menor do que a que existiu até alguns anos atrás e a Vila Paulo Dias. Entre os dois núcleos existia pouca coisa: A propriedades dos irmãos Cerioni (Dário e José) a casa do Sr. Benedito (filho de José Cerioni), a capela de Santa Luzia, um bar construído nas proximidades da capela e algumas casas de madeira pertencentes à CBA no terreno aonde anos mais tarde seria construída a nova igreja de São Francisco de Paula.
         A família Cerioni, que sempre se destacou pela atividade comercial na comunidade, possuía dois pomares entre as duas vilas citadas: um que margeava a rua de terra, formado por laranjeiras e outro constituído por pereiras e que ficava entre a atual Rua José Cerioni e a Rua Abel Souto.
Alguns anos mais tarde foi feito o loteamento do terreno existente entre a capela e a Vila Paulo Dias, e que veio a se chamar Vila Santa Luzia, a qual teve rápido adensamento.
         Depois da Vila Paulo Dias não existia nada, a não ser o posto de pedágio na Rodovia Raposo Tavares, onde hoje fica o trevo da entrada da vila do mesmo nome. É por isso que a vila se chama Pedágio.
         Onde hoje fica a vila Paraíso existia apenas uma granja e apiário, que se chamava Paraíso e deu origem ao nome da vila. Um advogado conhecido como Dr. Robertinho (Robert Philipe Lacroix)
 era o proprietário das terras.
O Jardim Progresso surgiu como “Pedaginho” e se tornou uma progressista e bela vila no extremo oeste do Distrito.
O Jardim Olidel surgiu já na década de setenta, resultado de um loteamento mais ao alto, á direita da Rodovia Raposo Tavares, sentido capital-interior e hoje é bastante populoso.

(Texto escrito originalmente em 1989).




A CONSTRUÇÃO DA FÁBRICA E O SURGIMENTO DA VILA INDUSTRIAL

Quando a Cia. Brasileira de Alumínio construiu sua fábrica na década de 1940 ela edificou paralelamente casas para os que trabalhavam na obra. Para isso ela criou em sua estrutura um Departamento de Obras – Construção Civil.
Além de proporcionar moradia para os trabalhadores próximo ao local das obras, a CBA tratou também de proporcionar a infra-estrutura necessária para que a pequena população pudesse viver e desenvolver suas atividades no trabalho e em sociedade.
Assim, ela edificou prédio para a Igreja católica, cinema, armazém, quitanda, açougue, delegacia de polícia, grupo escolar, posto de puericultura, ambulatório médico e campo de futebol.
A vila foi sendo ampliada conforme a fábrica foi se expandindo e na década de 1970 contava com mais de quinhentas e quarenta unidades residenciais. Além das residências propriamente ditas, havia os alojamentos para solteiros, uma república para técnicos e outra para engenheiros. A CBA cedia ainda com aluguel simbólico prédios para farmácia, barbearia, quitanda, padaria e um bar que servia lanches.
Também funcionavam na Vila Industrial a Delegacia de Polícia com uma pequena cadeia nos fundos, Correio, Biblioteca Pública, Cooperativa de Crédito e durante algum tempo um hospital e maternidade bem equipado.

O hospital foi desativado, mas a fábrica firmou convênio com hospital de São Roque e os médicos atendiam em algumas das dependências dele. Já o ambulatório médico atendia os empregados da fábrica e seus familiares, contando com um médico clínico e uma equipe de enfermeiros. A fábrica sempre manteve também uma equipe 
de serviço social com profissionais aptos para o encaminhamento de pacientes que necessitassem de tratamento mais agudo fora de Alumínio.


UMA SOCIEDADE ESTRATIFICADA

A Vila Industrial era constituída por setores: Havia o setor onde moravam o diretor, o médico, o advogado e os engenheiros. O outro setor abrigava os chefes de departamentos, técnicos e encarregados, geralmente ligados às áreas de mecânica, eletricidade e produção. Depois vinha o setor onde moravam outros profissionais especializados e por último aqueles com menor grau de especialização.
Essa setorização se refletia na vida social da comunidade, pois o poder aquisitivo era diferenciado entre os moradores deste ou daquele setor. As amizades dos descendentes, via de regra, também se desenvolviam seguindo esse caminho. Passados quatro décadas, através dos meios sociais os ex aluminenses se reencontram e mantém essa amizade, digamos, meio setorizada.
Se a empresa era quem fornecia as casas, a água, a manutenção das residências e os contratos de locação eram vinculados ao contrato de trabalho era natural que ela fizesse valer seus princípios em relação ao comportamento que se esperava de cada morador e sua família. Dessa forma era raro uma ocorrência policial envolvendo moradores do bairro.
Havia  uma política no sentido de premiar com emprego os filhos que estudavam e iam bem na escola, enquanto que os que perdiam o ano escolar saíam da fábrica para dar lugar aos que tinham aproveitado bem o ano letivo. O próprio diretor, no caso o Engº Antonio de Castro Figueirôa que dirigiu a fábrica entre 1955 e 1985 fazia questão de assinar mensalmente os boletins dos filhos dos empregados.
Com isso, ele conhecia não só os trabalhadores mas também os filhos que em geral, se tornavam também empregados na usina e recebiam isso como um prêmio.
Lendo esse relato, é possível concluir que a empresa acabava por assumir um papel que normalmente seria do Estado. É o que em Sociologia se chama de “Privatização do Poder”. 
Um interessante trabalho sobre essa temática foi escrito pelo sociólogo Sergio Sanandaj Mattos na revista Sociologia (Editora Escala), edição nº 39, Fev-Março/2012.
Sergio Sanandaj Mattos é sociólogo, professor e ex diretor da Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo (Asesp). É co-autor do livro Sociólogos & Sociologia, História s das suas entidades no Brasil e no mundo.
É interessante ressaltar que a grande maioria das pessoas que trabalharam e residiram em Alumínio em décadas passadas, entre as quais eu me incluo, guarda agradáveis recordações, tanto da vivência no trabalho como das amizades desenvolvidas na cidade. Tanto que existe hoje um grupo numa das redes sociais com o nome de “Amigos Antigos”, o qual cresce a cada dia e onde essas pessoas postam fotos daqueles tempos e fazem seus comentários, demonstrando muita satisfação com tudo isso.
Somos, ex moradores de Alumínio, estamos residindo fora de lá (Sorocaba, Mairinque, São Roque, São Paulo, em outros estados da federação e até mesmo fora do país.) Mas um sentimento comum nos une e  nos mantém em contínua comunhão de ideais, proporcionando-nos a alegria  de relembrar aqueles tempos em que vivemos na “terra do metal branco”. 





ACERVO FOTOGRÁFICO ILUSTRATIVO




Construção da CBA - Anos 40

CBA em 1944


Dr. Antonio de Castro Figueirôa
Diretor Industrial da CBA - 1955/1985)


Vista aérea da CBA


Vista parcial da Vila Industrial


Prof. João Loureiro Miranda
Diretor do Grupo Escolar


Clotildes Santana e Nancy Barros Gregoris
Professoras

Padaria do Neco

Bar e Lanches da AAA

Armazém (primeiramente da CBA,
 posteriormente do SESI)

Sr. Jair Mendes (Massa) com a esposa
dona Ruth (dono de babearia)


Vicente Botti (dono de quitanda)


Que foi sucedido pelo filho Clóvis


Restaurante da Vovó
Na casa do Sr. Francisco Cândido de Oliveira
(Velho Chico)


Vendedor ambulante (Sr. Pedro)


Lanches da dona
Maria Ferraz Machado

Vicente Metidieri 
(Delegado de Polícia
e funcionário da CBA)


Edson Euzébio de Araújo
(com a esposa dona Edméia)
Comissário de Menores

Estação Ferroviária


Rua Moraes do Rego - Principal acesso à fábrica

Igreja de São Francisco de Paulo





Piscina da Associação Atlética Alumínio



Hospital Maria Regina


Dr. Eno Lippi - Médico da CBA
(Atendimento aos funcionários
 e famílias)


João Batista de Andrade
(da equipe de enfermeiros)





Sra. Honorina Rios de Carvalho Melo
(Clube de Mães e Moca)

Desfile cívico

Grupo de Escoteiros "Lindolfo Pio da Silva Dias"


Sr. João Sabby (com a esposa dona
 Aparecida) - Chefe do Grupo de Escoteiros
Foi também fotógrafo e proprietário de
banca de joranis

Cine Alumínio

Programa de Calouros no Cine Alumínio
 comandado pelo Prof. José Bento dos Santos
nas manhãs de domingos

Evento Social - Concurso Miss 
Alumínio


Conjunto Musical "Os Liberais"
(liderado pelo Salvador Mariano do Nascimento)

Sra. Noêmia Cursio (com o esposo José) foi
funcionária do Poto de Puericultura.


Panfleto sobre o funcionamento
do Posto de Puericultura

Engº João Porphirio Sarmento
Fundador da Cooperativa de Crédito


Casas na Vila Industrial (1)


Casas na Vila Industrial (2)


Casas na Vila Industrial (3)


Casas na Vila Industrial (4)




MUDANÇAS ALTERARAM O VISUAL DA VILA



Muitas casas foram demolidas pela direção
da Cia. Brasileira de Alumínio


Para a implantação de estacionamento de
automóveis ou pátio de carretas


E implantação de projetos ambientais



O COMÉRCIO NA VILA SANTA LUZIA, PAULO DIAS E NAS DEMAIS QUE SURGIRAM COM O DECORRER DO TEMPO


         Com o surgimento do loteamento que recebeu o nome de Vila Santa Luzia e outras posteriormente, a CBA aproveitou para  acabar com a cessão de imóveis para fins comerciais na Vila Industrial.
         Assim, o comércio, antes centrado na vila da fábrica deslocou-se para as propriedades particulares, como demonstro através desta sequência 
fotográfica.


VILA SANTA LUZIA - PREEXISTENTE AO LOTEAMENTO


Capela de Santa Luzia

Vista aérea das propriedades da família Cerioni 
(ao fundo - residências e comércio)


Nota Fiscal do Armazém do
Sr. José Cerioni

Os irmãos Hamilton e Joaquim Cerioni sucederam
o pai Dário no ramo de açougue e leiteria



Assim como o caçula Valderi
(foto atual)



Neste prédio onde hoje funciona
um restaurante



 Luzia (Bida) Cerioni Fabiani
Bazar


Residência do Sr. Benedito Cerioni e família

APÓS O LOTEAMENTO



O árabe-descendente Salim 
Bohazi Jacob atuou no
 comércio de horti-frutis



Neusa Cerioni Duarte, na foto com o esposo
José Henrique - estabeleceu-se com loja de
tecidos na Vila Santa Luzia. A irmã dela, Alzira,
com loja de calçados na mesma vila

 João Xavier de Lima
Móveis e Eletrodomésticos 
na Vila Sta. Luzia

Carlos Rodrigues da Paz
 Barbearia


Outra barbearia, a do 
Sr. Lucídio P. Nascimento


Loja de Eletrodomésticos
Benedito de Souza Filho



Restaurante da família Watanabe

Loja do Geraldo Xavier de Lima

Paulo Simões
Farmácia

Esdras José T. Penna
Posto de combustíveis


Arlindo Taraborelli 
Armazém de Secos e Molhados
(funcionou anteriormente em Pantojo)


Natalino Taraborelli
Supermercado

Sucedido pelo filho Valdemir

Bar do Boiadeiro


Dra. Lais Lippi Ciantelli 
Odontologia


Bar do João Paulo Tibúrcio (ao centro, à direita do violeiro)
Promovia festivais sertanejos - Vila Paulo Dias 


Jairo Antunes dos Santos
Vila Paulo Dias (Mercearia)


José Aparecida Tisêo
Comércio de gêneros alimentícios
(Vila Pedágio)

Maurel Miller
Oficina Mecânica de autos
(Vila Pedágio)

Outros comerciantes se estabeleceram nas Vilas Santa Luzia e Paulo Dias, dos quais não temos fotos mas podemos citar como: Bar Divino Mestre, do Sr. João Pereira Gusmão, Restaurante da Família Coan, Mercearia do Sr. Ezequiel Miguel de Melo,Loja da Japonesa, Consultório Odontológico do Dr. Kenji Tutya, etc.


EXPANSÃO DA CIDADE

         Alumínio progrediu com o surgimento de muitos bairros. Seu comércio, antes restrito à Vila Industrial se expandiu pelas mais antigas, quais sejam Santa Luzia e Paulo Dias e depois para os demais bairros que surgiram como Brasilina, Paraíso, Pedágio, Progresso, etc.
         Como transferi residência para a vizinha cidade de Mairinque em 1980 e desliguei-me do trabalho em Alumínio em 1991, perdi o contato mais direto com a localidade e por causa disso não ouso historiar sobre essa terra hospitaleira após esses acontecimentos.
         No entanto, utilizando-me das redes sociais, é raro um dia que não posto alguma coisa sobre o então Município de Alumínio, condição que a localidade conquistou em 1991, tendo seu próprio governo municipal. Antes disso, em 1980, Alumínio se tornara um distrito de Mairinque


CONCLUSÃO

         Este trabalho pode ser melhorado através de críticas construtivas e sugestões. É assim que tenho feito com todas as postagens publicadas em meu blog.
        Portanto, se você tiver qualquer contribuição a fazer, poderá entrar em contato comigo através do e-mail indicado no final desta publicação, ou por mensagem no Facebook.


SOBRE O AUTOR DA POSTAGEM



Wilson do Carmo Ribeiro é industriário aposentado, pedagogo e historiador diletante. 
É presbítero em exercício da Igreja Presbiteriana do Brasil, servindo atualmente na Igreja Presbiteriana Rocha Eterna de Sorocaba.
E-mail: prebwilson@hotmail.com